Sacrificou-se até o fim

Quinta, 25 De Outubro De 2018

Várias pessoas ficaram emocionadas com o discurso do Marcos no final da Missa de corpo presente, ontem dia 24 de outubro de 2018 na capela do Cemitério do Flamboyant, antes do enterro do seu pai, Antônio Alexandre de Moraes. Ele permitiu que publicássemos no site do Castelo para que todos possam ter acesso ao texto e compartilhar com amigos.


"Meu pai morreu do jeito que viveu: se sacrificando até o último segundo pela família que tanto amava.

Papai sabia que adorávamos praia e já fazia um bom tempo que não íamos em uma. Por isso, mesmo depois de um sábado cansativo dando palestra de formação para casais – muitos aqui presentes – e de ter passado horas arrumando a casa, nos comunica que faríamos um bate-volta à praia no dia seguinte.

Decidimos assistir Missa no mosteiro que sempre víamos no alto da praia do Sapê, mas que nunca tínhamos conhecido.

Tentou deitar-se mais cedo, apesar de dores nas costas surgirem como prelúdio de sua iminente e precoce ida ao céu. Acordou as 3:00 da manhã, arrumou o carro e partimos.

Chegamos no Mosteiro – Arautos do Evangelho – e assistíamos a uma belíssima missa, com canto gregoriano. No altar, do lado do Sacrário, estava a imagem de Maria que meu pai mais gostava – Nossa Senhora de Fátima.

Na leitura do Evangelho (do domingo), ouvimos a passagem dos dois discípulos que queriam se sentar um a direita e outra a esquerda de Nosso Senhor. Jesus responde que quem quiser grande, deve ser servo dos outros e quem quiser ser o primeiro, que seja escravo de todos, pois o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate para muitos.

Meu pai viveu sua vida inteira incorporando esse mandamento de amor e de serviço que Jesus ensinou. Viveu para a esposa, para os filhos, para os amigos, para o apostolado e, acima de tudo, para Deus. Conforta saber que agora está descansando depois de tanto servir e de amar.

Na homilia (do domingo), o padre falou da importância do sofrimento para se alcançar o sucesso. Colocou tudo até em uma equação: Sucesso é igual a sofrimento mais santidade. E reforçou: devemos pedir hoje mesmo, agora, o sucesso, mas não nos esqueçamos do sofrimento.

Se meu pai chegou a fazer o pedido interiormente eu não sei, mas não tenho dúvidas de que nesse mesmo dia ele atingiu o maior de todos os sucessos possíveis: o céu.

Na praia, eu tentei durante duas horas, exaustivamente, atravessar a quebrada de ondas com uma prancha que tinha alugado, mas sequer consegui chegar na metade do caminho de onde os surfistas profissionais estavam. Lembro de meu pai me dizendo: Marcos, vai nadando com calma e quando a onda vier, deixa ela atingir, e depois volta a nadar devagar, avançando aos poucos. Mas não consegui. A mensagem do dia já estava clara: hoje você não vai conseguir vencer as ondas. Hoje o mar bravo vai te jogar para trás, por mais que você tente avançar.

Meu pai entrou um pouco no mar e, igual ao filho, saiu exausto. Sentou para descansar e disse que voltaríamos antes para casa, porque não estava se sentindo muito bem. Levantou e quis ir acertar as contas do quiosque. Mesmo sem forças, fez questão de me entregar o cartão e sussurrar muito baixinho em meu ouvido a senha para que pagássemos o que devíamos, enquanto voltava-se a sentar.

Fui ao seu lado e perguntei se não queria que eu dirigisse. Mesmo naquele estado fez o que sempre fez: se sacrificou até o fim pela família e disse que não precisava. Segundos após, Maria veio para buscar seu filho amado e leva-lo junto a Deus Pai, Deus Filho e Deus Espirito Santo.

Fico pensando muito na cena de meu pai me passando o cartão e a senha para pagar o quiosque, mesmo sem força nenhuma. Até nisso ele quis fazer direito antes de partir: honrar todos os pequenos compromissos fielmente. Meu pai realmente viveu todas as coisas do ordinário de maneira extraordinária. Incorporou e viveu o espirito do Opus Dei louvavelmente. Fiquei tão feliz em imaginar São Josemaria acolhendo meu pai, dando-lhe carinhosos tapinhas nas costas e lhe dizendo: “muito bem meu filho, viveu grandiosamente o pequeno de cada dia, estou orgulhoso”.

Olhando para a trajetória de meu pai, como não pensar e se emocionar na passagem de São Paulo que ele mais gostava: Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.

É duro pensar na precocidade de sua partida, mas é muito feliz pensar que morreu bem porque viveu bem. Sempre combateu o bom combate, guardou a fé até o fim e agora Deus quis que sua carreira acabasse para descansar.

Olhando a todos vocês aqui presentes, nossa família contempla, admirada, a quantidade de frutos que um santo homem deixou. São incontáveis os rastros que deixou no coração de muitos.

Todos nos dizem que ele foi um bom homem, fiel e generoso, mas nós, de sua família, presenciávamos todos os dias sua indescritível generosidade. 11 filhos, uma esposa, muita entrega e muito amor.

Nossa família agradece de coração a cada um que aqui se faz presente, seja fisicamente ou espiritualmente pelas orações. Cada consolo, cada mensagem, cada abraço e cada beijo e, acima de tudo, cada oração, fizeram e ainda fazem imensa diferença. Todos vocês são a prova de quão grande foi nosso pai. Ele vive agora em cada um vocês e de nós.

Não temos dúvidas de que o nosso querido Toninho fará mais bem por nós no céu, ao lado de Maria, São Josemaria e de Deus, do que na terra. Recorramos sempre à sua preciosa intercessão, especialmente para as pequenas crises e dificuldades do dia a dia.

Agora, preciso acabar essas palavras me dirigindo unicamente à mulher mais amada por esse santo e por nós.

Querida, você sabe o quanto eu gosto de me dirigir a você com o começo daquela frase bíblica referente à Maria: “ó mais formosa das mulheres”. Agora, como custa ver que essa frase tem um duro complemento: “ó mais formosa entre as mulheres, para onde foi o teu amado? Dizei-nos aonde foi, a fim de que o procuremos contigo”.

Querida mãe, essa linda família que você construiu ao lado desse pai maravilhoso foi a maior fonte de alegria da vida dele e também é da sua. Como disseram, a maior e principal empresa de papai, o seu maior orgulho, é sua família. E Deus quis que você, Maria Cristina, fosse a única e insubstituível companheira de um santo. Tiveste o papel mais privilegiado e mais querido na trajetória de nosso querido pai. Ele agora descansa, em paz, no céu, mas sem tirar os olhos, um segundo sequer, daquela que ele mais se entregou, mais se doou e mais amou. Lembra-te, sempre, que papai só viveu santamente, porque viveu um santo matrimonio ao seu lado e nós, seus queridos e amados filhos, frutos de tão grande amor, estaremos sempre ao seu lado."